Tendência da Pesca

Hernâni Lopes

O Planeta enfrenta, a médio/longo prazos, um acréscimo de necessidades alimentares nunca visto no passado. Não resulta só do acréscimo populacional, mas também, e principalmente, do aumento de rendimento de centenas de milhões de pessoas que querem, naturalmente, emular os comportamentos das economias mais desenvolvidas.

Acresce que muitas dessas centenas de milhões emigraram – ou estão emigrando – das suas regiões nativas, abandonando as suas aldeias, onde viviam da agricultura de subsistência, para zonas de dinamismo económico onde predominam atividades dos grandes sectores secundário, terciário e no presente/futuro, quaternário. Muitas dessas zonas são litorais ou estão na sua proximidade sendo por isso aqui consideradas como litorais lato sensu e onde a população tende a concentrar-se em grandes metrópoles. O caso da China é ilustrativo desta evolução.

Nessas grandes urbes, muitas delas na faixa litoral, o intercâmbio de valores e a disseminação das tecnologias de informação, revela os hábitos das sociedades mais desenvolvidas.

É humanamente natural que as populações das economias emergentes cultivem expectativas de alcançarem parte desses hábitos, tanto mais que arriscaram em emigrar – abandonando voluntariamente os seus estilos de vida baseados na subsistência e na estabilidade social/cultural – e estão, gradual ou rapidamente, a sentir os seus rendimentos a subir.

Mesmo que os aumentos da riqueza produzida não sejam equitativos (nunca o foram na História), taxas de crescimento de dois dígitos por um período que vem cerca do início deste milénio, correspondem, necessariamente, a que muitas centenas milhões de pessoas, deslocadas, tenham começado já a sentir melhorias no seu bem-estar material e anseiem por prosseguir essas melhorias. Não havendo evidência histórica que nos possa dizer por quanto tempo e como se processará este desenvolvimento, devemos tentar trabalhar sobre os desafios que ele levanta, nomeadamente, no domínio que aqui nos importa que são as atividades alimentares, em particular, as relacionadas com o peixe.
De facto, será viável alimentar tanta gente, com critérios quantitativos das economias mais desenvolvidas?

Mesmo sem se atingir os critérios quantitativos, trabalhando apenas com os “necessários” à sobrevivência, não poderá haver tensões inflacionistas por razões de deslocação da procura, menor produção de subsistência ou desvio de solos para outro tipo de produções (como, recentemente, os biocombustíveis) ou, ainda, dificuldades na oferta por motivos de alterações climáticas, que dificultem o acesso das populações em muitas regiões do globo ao necessário à sua sobrevivência?

Contudo, as questões não se põem só ao nível da sobrevivência ou quantidade. Nas sociedades mais desenvolvidas ou, melhor, nos estratos sociais do planeta com níveis elevados de rendimento e crescente consciência de dietas alimentares “sãs”, além de quererem usufruir mais ou menos ocasionalmente de experiências culturais culinárias (que existem também e crescem nas economias emergentes), as questões passam a ser também de ordem qualitativa. Mas estes estratos sociais estão em crescendo, pelo menos, na ordem de grandeza da taxa de crescimento económico.

Não se trata apenas de produzir em termos alimentares mais para satisfazer as necessidades crescentes duma população mundial também crescente. Crescentes níveis de rendimento tendem também a ditar uma melhoria da dieta alimentar nas populações. A proteína animal, seja na forma de carne, seja na forma de pescado, ganha uma crescente quota na dieta das populações. O consumo per capita de carne terá disparado em estratos sociais asiáticos que atingiram níveis de rendimento que lhes proporcionam um acesso a uma dieta mais rica. A emulação de comportamentos proporcionada pela globalização dos media contribui naturalmente para o referido desejo de uma dieta mais rica, desejo este que se converte com o passar do tempo em “necessidade”.

Adicionalmente, parte dos estratos populacionais das sociedades desenvolvidas que já se tinham habituado a dietas “ricas” vinham cultivando a arte da culinária/cozinha, nada mais natural do que, após resolvida a questão da sobrevivência, (re)começassem a cultivar os sentidos respeitantes à alimentação. As “iguarias” eram redefinidas e o próprio mercado explorava esta oportunidade requalificando produtos que, outrora “pobres” tinham passado a ser escassos ou que se lhes tinha sido encontrado propriedades “saudáveis”.

Passou-se da questão histórica (a nível das massas populacionais) da sobrevivência (alimentar) para a da “vivência” alimentar a escalas populacionais muito mais vastas do que os estratos sociais privilegiadas do passado.

Estes estratos estão, no entanto, começando a entrar num upgrade desta mesma evolução. Além da “vivência” alimentar estão questionando e desejando alimentos “enriquecidos” e/ou ambientalmente produzidos “biologicamente” e ainda, “enriquecidos nutricionalmente”, com um espectro de ação alargado (por exemplo, em termos de vitaminas) ou “dirigido” (por exemplo, ricos em cálcio). De certo modo, pode(rá) começar a antever-se uma alimentação “à medida” de cada consumidor, de acordo com as suas preferências/necessidades “definidas cientifica/esteticamente”, que os sistemas de saúde/estética, de produção alimentar e media cooperam em fazer crescer e em tornar “higiénica/saudavelmente” recomendáveis (por exemplo, além do proibicionismo tabágico começa-se a pensar penalizar os obesos – no acesso aos sistemas de saúde – no caso de não adotarem “dietas” adequadas).

Julga-se poder inserir ou vir a inserir nesta tendência os “functional foods”, alimentos ou componentes dietéticos que podem fornecer um benefício em termos de saúde para além da função básica de nutrição.

Refira-se que aqui os produtos do mar são relevantes.
Referimos antes que, quer as necessidades crescentes de produção alimentar, quer o desenvolvimento científico e tecnológico, ditarão muito provavelmente a prossecução duma via de crescente produção alimentar potenciada pela tecnologia. Mas será esta via “sustentável” numa perspetiva de médio/longo prazo? Comportará o planeta tal via?

De facto, há quem ponha em causa tal via. Porventura, eivados por uma visão “neo-malthusiana” mas que deve ser ponderada. Um dos distintos defensores é Jared Diamond que na sua obra “Collapse” (2005) refere explicitamente que esta via é insustentável, que a pesca e a aquicultura se inscrevem nessa insustentabilidade e que essa insustentabilidade se pode deduzir da designada “tragédia dos comuns”.

Diamond argumenta que é insustentável para o planeta que a população do “Terceiro Mundo” venha a alcançar/aproximar-se dos padrões de consumo per capita do “Primeiro Mundo”. Mais importante que o volume populacional são os estilos/padrões de vida.

As populações do “Terceiro Mundo” querem emular os padrões do “Primeiro”, mas tal revela-se, em si mesmo, insustentável. Por outros termos, na perspetiva de Diamond, os recursos do planeta não aguentam tal exploração em muitos domínios. Como se deve trabalhar/refletir em termos integrados/holísticos/sistémicos, o exaurir de alguns recursos do planeta é suficiente para conduzir a situações de insustentabilidade do ecossistema que o próprio planeta representa.

Esta insustentabilidade conduzir-nos-ia ao “Colapso”, como por ele referido.
Apesar das argumentações de Diamond, é legítimo levantar algumas interrogações. As posições humanas intelectuais por mais avançadas que estejam no tempo estão sempre “datadas”, isto é, foram elaboradas com os conhecimentos do seu tempo e com os “precognitions” (e/ou clarividência) que esse mesmo tempo proporcionava.

De facto, trabalhando com os paradigmas prevalecentes, há domínios sem ser o ambiental em que se detetam incógnitas do tipo bloqueios ou descontinuidades que conduzem intelectualmente a situações tipo Colapso – o domínio geopolítico está cheio delas (o paradigma dum possível “Holocausto nuclear” ainda não está afastado e orientou muitas das macro decisões do século XX), assim como o domínio do geopolítico onde, entre outros, os “desequilíbrios” macroeconómicos globais parecem só apontar para “descontinuidades” que conduziriam o planeta ou as comunidades humanas a situações de rutura (muito) antes das situações de rutura(/colapso) ambientais.

Uma das possíveis dimensões respeita aos recursos deep-water. A exploração dos recursos marinhos deepwater só muito recentemente se configura como uma das novas fronteiras onde a humanidade poderá recorrer para muitas das suas necessidades conhecidas e, porventura, outras ainda desconhecidas.
De facto, só recentemente a tecnologia dá passos para o conhecimento, quer das águas deep-water, quer dos fundos, dos solos e dos subsolos marinhos a grande profundidade.

Esta “tardia” chegada a estas novas fronteiras só é tardia porque, como em muitos domínios, a necessidade impõe e os recursos, de toda a ordem, começam a emergir. Os sinais dessa exploração já estão aí.

Descontando os primórdios dessa exploração realizados pelas marinhas de guerra no século passado, como muitas primeiras explorações da História humana, a exploração de hidrocarbonetos está a avançar, bem como a crescente captura de espécies piscícolas. Como se referiu anteriormente, o número de espécies classificado como de águas profundas (deep-water) continua a aumentar, revelando não só os desenvolvimentos tecnológicos aplicados à captura em deep-water como também à necessidade de explorar novos espaços piscatórios.

*Excerto apresentado por SOAMAR Brasil em Portugal


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