Projeção do Brasil no Atlântico Sul

Wanderley Messias da Costa

Há oitenta anos Mário Travassos, patrono da geopolítica brasileira, elaborou e defendeu as bases da projeção continental do Brasil que se concretizaria a partir dos anos 1990 com o processo de integração regional da América do sul sob a liderança do país. Neste início do século XXI, um novo cenário regional se abre para o Brasil e dessa vez ele é marítimo e sua escala é o Atlântico Sul.

Esse alargamento do seu entorno regional e estratégico corresponde à nova escala de interesses, oportunidades e influência de um país que se consolida enquanto potência econômica mundial e que tem no domínio e na exploração dos recursos do mar uma das mais promissoras fontes de riqueza. Ainda que traços importantes da identidade nacional do país sejam marcados pela longa história da interação com o Atlântico, foi a partir dos anos 1970 que iniciou de fato a mudança de rumo e parte importante do seu desenvolvimento apontou a direção do mar.
Transição difícil, mas relevante, sobretudo por se tratar de país imenso, essencialmente continental e com estrutura produtiva em grande medida interiorizada, no qual os desafios de ocupação, domínio, uso e ordenamento do território consomem parte considerável da energia despendida.

Além disso, a expansão agropecuária, populacional e urbana ainda é vigorosa em direção ao centro-oeste e ao norte, e a maior parte das fronteiras terrestres carece de estruturas adequadas de controle e defesa. Ressalte-se que apesar das décadas de políticas públicas e programas voltados para a Amazônia, por exemplo, essa imensa região foi considerada pela Política de Defesa Nacional (2005) uma vulnerabilidade estratégica.

De todo modo, essa inflexão nos rumos do desenvolvimento em direção ao Atlântico Sul nos últimos quarenta anos é evento singular na história do país e expressa a conjugação de vetores de largo espectro e longa duração. Primeiro, pelo impacto das primeiras descobertas de petróleo no mar nos anos setenta e o início da sua exploração no final dessa década. A elas seguiram as novas jazidas na Bacia de Campos e principalmente os promissores campos nas águas profundas da Bacia de Santos (o Pré-Sal). Com isso o país tornou-se autossuficiente em petróleo no início dos anos 2000 e hoje quase 90% da produção provêm da exploração offshore.

Estudos de potencialidade indicam que após a entrada em operação dos campos do Pré-Sal haverá condições de produzir excedentes e o país poderá tornar-se importante exportador de petróleo, de gás natural e dos seus derivados.

Segundo, pelo bom desempenho do comércio exterior na última década, cujas exportações alcançaram US$ 240 bilhões nos últimos doze meses e com pauta atualmente concentrada nas commodities, mas da qual também constam itens de alto valor agregado como aeronaves, máquinas e veículos automotores. Por volta de 90% desses fluxos comerciais são realizados pelo mar, nos quais se destaca o vigoroso crescimento do tráfego nas rotas oceânicas ligando o país aos mercados emergentes asiáticos e, especialmente, a China a partir da última década . Os principais reflexos dessa nova posição são a ampliação da escala e a diversificação do destino final dos produtos, da tecnologia e da cultura brasileira no exterior, além da maior visibilidade e fortalecimento da posição do país na cena internacional, nos organismos da governança mundial e nos temas globais mais relevantes.


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