Petróleo no Mar

A Geopolítica Energética Contemporânea

O século vinte testemunhou a maior mudança nas fontes de energia que o mundo talvez tenha experimentado desde que o uso do fogo foi disseminado. Nos primeiros vinte e cinco anos do século, o carvão foi indiscutivelmente a principal fonte de energia para o mundo industrializado. As necessidades energéticas dos grandes países podiam ser atendidas inteiramente por recursos internos ou suplementadas por fontes próximas (no caso do Japão). O carvão teria continuado a ser a principal fonte de energia se a descoberta de grandes quantidades de petróleo no sul da Rússia, no Oriente Médio e, mais tarde, nos Estados Unidos, não tivesse despertado rapidamente o interesse na facilidade comparativa de sua extração e transporte, e de sua conversão para atender a uma grande quantidade de necessidades.

Que circunstâncias causaram a revolução do petróleo a partir de meados dos anos cinqüenta? Que circunstâncias levaram sua disponibilidade a ser colocada no topo das prioridades nacionais? Essas perguntas podem ser ilustradas por referências estatísticas ao aumento do consumo de energia, a partir de 1960 (o ano em que foi fundada a Organização dos Países Exportadores do Petróleo [OPEP)); naquele ano, o consumo mundial de energia foi da ordem de 132 quintilhões de British Thermal Units (QBTU); dez anos mais tarde, era de 217 QBTU; cinco anos depois, em 1975, chegava a cerca de 225 QBTU. Em 1990 a 415 QBTU -um aumento de mais de três vezes no consumo mundial de energia em apenas trinta anos.

Qual foi a participação do petróleo (e do gás natural) nesses aumentos? Em 1960, representavam 48 por cento do consumo mundial de energia. Dez anos depois, a participação havia aumentado para 63 por cento; em 1975, já estava em 67 por cento; e em 1990, mesmo se supusermos uma grande contribuição da energia nuclear, a participação do petróleo e do gás natural chega a 85 por cento. As implicações em termos de quantidade são impressionantes. Oito bilhões de barris de petróleo consumidos em todo o mundo em 1960, 17 bilhões de barris em 1975, e 30 bilhões de barris em 1980: um aumento de quase quatro vezes do consumo de petróleo e gás em trinta anos.

O carvão, por outro lado, que havia sido a principal fonte de energia, ainda era responsável por 47 por cento do consumo mundial de energia em 1960, mas caiu para 30 por cento em 1976.

Assim, a conveniência do petróleo, o fato de exigir uma quantida¬de mínima de mão-de-obra, o número extraordinário de aplicações. e, talvez mais importante de tudo, o fato de ser relativamente barato, mais o enorme aumento da capacidade de produção, e as descobertas de imensos depósitos – tudo se combinou para tornar o petróleo e seus derivados a forma mais desejável e mais importante de energia.

A decisão que levaria o petróleo a assumir, anos mais tarde, o primeiro lugar como fonte de energia foi tomada antes da Primeira Guerra Mundial, quando o Almirantado Britânico resolveu convencer sua esquadra de guerra para consumir óleo, uma decisão rapidamente imitada por todas as grandes potências da época. Esta medida resultou em toda uma série de fatores geopolíticos: o acesso ao petróleo impôs novos e importantes compromissos às políticas externa de defesa. Para os ingleses especialmente, dado o tamanho e o papel da Marinha Real, o Oriente Médio, que ainda era considerado como a “ponte” para a Índia e o Oriente, uma ponte a ser defendida contra as ambições dos russos, adquiriu um outro significado estratégico: o acesso aos campos de petróleo do Irã e do Golfo Pérsico.

Antes da Segunda Guerra Mundial, os interesses franceses, alemães e norte-americanos também procuravam acesso ao petróleo. Embora a importância estratégica do petróleo possa ter pesado, não foi necessariamente o fator predominante que levou esses países a se interessarem pelo Oriente Médio. No caso da Alemanha, o desejo de obter uma vantagem estratégica em relação à Inglaterra pode ter sido mais importante que o petróleo em si. Da mesma forma, a rivalidade tradicional entre a França e a Inglaterra pode ter sido a razão original para a presença francesa ‘no Oriente Médio, que de qualquer forma não se baseava cm uma necessidade premente de petróleo. No caso dos Estados Unidos, os interesses comerciais foram os mais importassem. Talvez tenha sido principalmente no caso do Japão (que, entretanto, procurou seus suprimentos no Sudeste Asiático) que o reconhecimento da importância estratégica do suprimento de petróleo motivou atividades externas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a ameaça da expansão soviética no Oriente Médio e a criação de Israel acrescentaram novas dimensões aos interesses norte-americanos. A crescente importância atribuída ao petróleo no comércio internacional de energia expandiu rapidamente a lista de preocupações norte-americanas. Entretanto, os Estados Unidos não discutiram as implicações a longo prazo deste acentuado interesse pelo petróleo em geral, nem seu acesso exclusivo ao petróleo da Arábia Saudita. Isto é verdade até hoje, embora os aliados e outros considerem ridículo que os Estados Unidos continuem a explicar que não existe nenhuma “relação especial” quanto às imensas reservas de petróleo daquele reino, de cuja política dependem os interesses energéticos de tantos.

As nações industrializadas em geral não têm tido políticas energéticas apropriadas ao seu grau de dependência. Não é de surpreender, portanto, que no começo dos anos 60, quando o consumo de petróleo começou realmente a disparar e a se classificar bem alto na lista de interesses estratégicos das nações, mudanças políticas nos países produtores tenham destruído o sistema imperialista; o controle do petróleo passou para o outro lado. A mudança foi rápida demais para permitir que os países industrializados examinassem com calma as alternativas de que dispunham para recuperar a necessária garantia de suprimento.

Necessidades Energéticas do Mundo Industrializado

O crescimento exponencial das necessidades de energia importada dos grandes países industrializados é a condição básica que inicia uma discussão da geopolítica energética. Três conjuntos de dados ilustram a situação: (I) o aumento do consumo de energia desses países; (2) até que ponto essas necessidades têm sido atendidas pelo petróleo e pela importação de petróleo; (3) a importância do Oriente Médio e da África como fornecedores.

1 Durante o período 1960-1980, o consumo de energia dobrou em geral e triplicou no caso do Japão; a Europa e o Japão continuaram a depender totalmente, para todos os propósitos práticos, do petróleo importado.

2 De 1960 a 1980, a importância do petróleo para a economia norte-americana aumentou de 20 para 35 trilhões de British Thermal Units (BTU); as importações norte-americanas aumentaram de 23 por cento para 39 por cento. Foi durante este período que os Estados Unidos deixaram de poder atender internamente a suas necessidades energéticas e deixaram de ser o fornecedor de petróleo para o Japão e os aliados da OTAN em caso de emergência.

3 O Oriente Médio e a África continuaram a ser os principais fornecedores de petróleo para a Europa Ocidental e o Japão, e a importância dessas regiões para os Estados Unidos quase triplicou entre 1960 e 1980.

4 Durante o período 1960-1980, apenas a U.R.S.S. foi e continua a ser auto-suficiente em matéria de energia e, portanto não dependeu de suprimentos externos.

*Excerto apresentado por SOAMAR Brasil em Portugal


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