Náutica de Recreio e Turismo Náutico

Hernâni Lopes

A componente Náutica de Recreio e Turismo Náutico inclui diversos tipos de atividades, umas mais ativas e associadas ou não à competição, abrangendo os vários Desportos Náuticos – vela de cruzeiro, vela ligeira, windsurf; kitesurf, surf, bodyboard, rafting, remo, canoagem, kayak, ski aquático, motonáutica, pesca desportiva, caça submarina, mergulho – que podem ser praticados no mar, rios e estuários e lagos naturais ou artificiais (albufeiras), e outras mais de contemplação e/ou descanso como o simples passeio ou desfrute do litoral e dos seus atrativos, as talassoterapias e os Cruzeiros Náuticos, que podem ter lugar em grandes navios que percorrem os oceanos e escalam vários portos, em embarcações de média dimensão destinadas a tráfego fluvial ou costeiro, permitindo ou não a pernoita, ou mesmo em pequenas embarcações de passeio local.

No que respeita à participação nessas atividades também se podem considerar diversos sectores:

* os praticantes das várias modalidades que constituem a procura do sector e que vão desde o praticante ocasional, ao praticante de competição, passando pelos praticantes de lazer, ou de fins-de-semana, pelos que procuram formação, e pelos turistas ativos que dedicam uma ou mais semanas das suas férias à prática de uma atividade náutica de recreio;

* o sector dos serviços que, parcialmente do lado da oferta e parcialmente do lado da procura, incluem os clubes e escolas de desportos náuticos, oferecendo a possibilidade de praticar/usufruir das várias atividades de náutica de recreio e turismo, os estaleiros de reparação e manutenção, os portos de recreio, marinas, fundeadouros e outras infraestruturas de apoio como rampas, caminhos de rolamento, etc., os equipamentos de alagem e transporte das embarcações, os cais de embarque para apoio às embarcações marítimo-turísticas e os terminais de cruzeiros e serviços associados, designadamente os de receção no embarque e desembarque e os de apoio em escala, essencialmente dedicados a passeios turísticos; e

* o sector da indústria, do lado da oferta, que cria e fabrica os diferentes materiais necessários para a prática da náutica de recreio e que abrange desde a construção naval, de navios e pequenas embarcações, e obras marítimas, até à produção de artigos de vestuário especializado, passando pela fabricação de equipamentos para portos de recreio e de acessórios para cada desporto

Num quadro de desenvolvimento económico e social, a criação de infraestruturas e equipamentos de apoio aos Desportos Náuticos, Navegação de Recreio e Turismo Náutico pode ser considerada como uma Acão ou um conjunto de projetos e ações estruturantes, na medida em que:

* tem influência nas opções estratégicas que se colocam ao país, designadamente ao nível do aumento da atratividade de Portugal, enquanto destino turístico, pela valorização e diversificação da oferta de serviços turísticos;

* permitirá a captação de segmentos específicos da procura turística internacional ligados a esta componente: prática de desportos náuticos, aumento do número de escalas e do tempo de estadia do navegador náutico, estacionamento permanente e sazonal (hibernação) de embarcações de recreio, turismo dinâmico e em busca de “experiências” ligadas ao mar e turismo cultural e de lazer que associa o turismo náutico ao desfrute da paisagem, da gastronomia e do património histórico, cultural, tradicional e evocativo;

* proporcionará o desenvolvimento das atividades ligadas ao aluguer de equipamentos e embarcações de recreio e à formação em náutica de recreio e desportos náuticos, aos serviços de apoio em terra aos desportistas e turistas náuticos e aos navios de cruzeiros – restauração, alojamento, excursões, outras atividades turísticas, recreativas e culturais, lavandarias,
abastecimentos, serviços de manutenção de embarcações e à formação em profissões ligadas ao mar;

* irá dar resposta à procura interna, actual e potencial, nos diferentes segmentos dos desportos náuticos, recreio e turismo; e

* contribuirá para a valorização ambiental e paisagística de zonas portuárias e marginais degradadas, através da sua reconversão e aproveitamento para os desportos náuticos, para a criação de condições para o uso ordenado e disciplinado de planos de água costeiros e espaços terrestres marginais, aproveitamento, requalificando e revalorizando as áreas de Domínio Hídrico e as atividades relacionadas com os planos de água as quais apresentam um enorme potencial a explorar.

De facto, nas últimas décadas, os portos e as cidades desenvolveram-se distanciadamente, originando um isolamento relativo dos primeiros em relação às segundas e vice-versa. Para alterar a situação, tornam-se necessárias medidas práticas que adequem entre si as zonas portuárias e citadinas.

Os portos desempenham um papel determinante nas populações ribeirinhas que desenvolveram competências nas múltiplas atividades e artes correlacionadas com a atividade portuária. Por isso, a revitalização e reconversão desta atividade tem de ser enquadrada num projeto que integre todos os complementos históricos, paisagísticos, económicos e sociais numa procura de complementaridade, continuidade e sinergias.

A criação de zonas de apoio aos desportos náuticos e a modernização, reconversão ou criação de um porto de recreio, regeneram a zona onde estes se inserem, o que provoca consequentemente o valor acrescentado do imobiliário, o aparecimento de atividades económicas direta ou indiretamente ligadas à náutica de recreio, ultrapassando desta forma a função inicial de apoio aos desportos náuticos e à navegação turística e desportiva.

Por outro lado, o aproveitamento de áreas portuárias degradadas ou subutilizadas, quer para a criação de apoios à náutica de recreio, quer através do desenvolvimento de terminais para cruzeiros náuticos, e a recuperação de antigos hangares, armazéns e estaleiros para alojar os clubes e associações de desportos náuticos, permitem beneficiar da proximidade dos núcleos urbanos, na maior parte dos casos com características históricas ou ligados a modos de vida tradicionais.

As expressões tradicionais da economia e sociologia locais, a pesca artesanal e a gastronomia que lhe está associada, o património histórico, cultural e evocativo e o artesanato, entre outros, associados ao novo polo de interesse gerado pela implementação de um porto de recreio, marina ou terminal de cruzeiros, constituem fatores de atracão que contribuem para o desenvolvimento das funções comerciais, de restauração, turísticas e de lazer de zonas urbanas ribeirinhas, gerando novos fatores de atracão e novos postos de emprego direto e indireto (um levantamento da Euromarina associa a cada 100 postos de acostagem a criação de 3 empregos diretos e 12 indiretos).

Ou seja, o bom aproveitamento das potencialidades para o desenvolvimento das actividades de náutica de recreio e de turismo náutico vai gerar benefícios económicos e sociais, diretos e indiretos, tais como:

* o aluguer de postos de amarração, pool (subaluguer de postos de amarração vendidos com autorização dos proprietários), ocupação da grade de marés, estacionamento de viaturas, revenda de combustíveis, fichas elétricas para ligação ao cais, assistência;

* o estacionamento em seco, armazenagem a coberto de embarcações e palamentas, serviços de alagem, lavagem de fundos, trabalhos de reparação e conservação de embarcações;

* os serviços de apoio às tripulações, tais como balneários, lavandaria, restauração, comércio, entre outros;

*a criação de emprego industrial, comercial e de serviços ligado às atividades náuticas de recreio, nomeadamente à venda de embarcações e outros acessórios, à manutenção e outros serviços de apoio;

*o aumento de receitas resultantes da venda de serviços turísticos ao exterior, associado ao aumentado o número de turistas (nacionais e estrangeiros), ao prolongamento das estadias dos visitantes na Região e à atracão de investidores para o manancial turístico a desenvolver;

* a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, proporcionada por um acesso mais fácil à prática de atividades náuticas de turismo, recreio e desporto; e

* a dinamização da atividade económica em comunidades litorais, de pequena e média dimensão, dependentes da atividade piscatória e da agricultura, assegurando ocupações alternativas e um melhor escoamento da pesca e dos produtos agrícolas.

Finalmente, refira-se o importante efeito sinergético da criação de portos de recreio e marinas: o
desenvolvimento das atividades náuticas de recreio proporcionado pela implementação de espaços de apoio, faz aumentar a frota, o que por sua vez cria pressões no sentido de incremento da oferta de postos de acostagem, e assim por diante.

Relembre-se que na década de 60, quando se começaram a construir os primeiros portos de recreio no sul de Inglaterra, houve quem considerasse exagerado o número de postos de acostagem previsto, temendo um excesso de oferta. No entanto, o que se verificou foi que os preços dos postos nunca pararam de subir e que na verdade o seu número máximo teve que ser, em algumas zonas, limitado pelas autoridades.

Como referido, nos últimos anos tem-se vindo a assistir à reabilitação de áreas portuárias desafetadas das suas funções comerciais para fins associados ao lazer e à náutica de recreio. A tomada de consciência das autoridades portuárias por esta problemática veio a traduzir-se no reordenamento dos portos, aproveitando espaços subutilizados pela pesca e por outras atividades portuárias ou reabilitando zonas ambientalmente degradadas, o que permite:

*evitar elevados investimentos na construção de obras de proteção e abrigo, apenas compensados pela construção de áreas imobiliárias envolventes, onde o porto de recreio atua como um valor turístico;

*minimizar potenciais impactes sobre o trânsito litoral de sedimentos e sobre a fragilidade dos sistemas que caracterizam a orla costeira, e que muitas vezes desaconselham a implantação de novos empreendimentos urbanos e turísticos;

*trazer aos portos novas fontes de receitas;

* introduzir benefícios sociais e ecológicos resultantes das recuperações ambientais e urbanas; e

*criar novos postos de trabalho associados à vigilância e manutenção das obras e espaços portuários e embarcações de recreio e ao desenvolvimento de serviços de cruzeiros e passeios marítimos e de pesca desportiva, que poderão, por exemplo, absorver mão de obra resultante da diminuição do esforço de pesca.

*Excerto apresentado por SOAMAR Brasil em Portugal


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