Cultura Marítima

Hernâni Lopes

De facto, é comum esquecer-se e desvalorizar-se cada vez mais o que não se conhece, seguindo um processo descendente, contínuo e autoalimentado de difícil inversão de tendência.

Por isso, é fundamental dar a conhecer o mar e também o esforço de recuperação da imagem que, mesmo nos países onde a tradição e a vocação marítimas foram marcantes, tem sido muito intenso.

O êxito já conseguido pela generalidade dos clusters e o rumo certo dos que estão a caminho do sucesso justificam a inclusão destas atividades na matriz do Hypercluster. Logicamente, recomendam que, quando aplicável, se usufrua das boas experiências alheias.
No aspeto da comunicação, as atividades marítimas em Portugal necessitam de uma forte revitalização, sem o que não será possível assegurar o sucesso do Hypercluster. Se pensarmos retrospetivamente, podemos concluir que houve em Portugal pelo menos três fatores responsáveis pelo apagamento da maioria das atividades marítimas, nas últimas três décadas, não incluindo neles a falta de vontade política e de capacidade civil para inverter a queda.

São eles:

* O choque da subida do preço do petróleo de 1973, com efeitos no transporte marítimo e na construção e reparação naval, estruturados com base em parâmetros de energia e mão-de-obra
baratas;

* A independência dos territórios do ultramar português, com o consequente final das linhas de comunicação marítimas privilegiadas para África e Extremo Oriente;

* A adesão à Comunidade Económica Europeia, que provocou, por razões várias, uma forte redução da atividade da pesca, a traduzir-se na queda para metade das capturas nacionais.

Estes fatores substantivos foram agravados por outros de natureza psicológica, com matriz pseudoideológica, que geraram uma moda de visão curta, estritamente europeísta, que conotava a tradição marítima e as ligações atlânticas com um determinado passado político. A vocação marítima, por existir há séculos, não pode ser agora um travão, antes tem de constituir um suporte ao desenvolvimento da nossa economia marítima.

Esta caracterização talvez seja agora menos marcada, até por força da evolução pró-mar de muitos países europeus, mesmo sem o valor da nossa posição histórico-geográfica, mas será ainda um factor a considerar, e cuidadosamente, no âmbito da criação de uma nova imagem do relacionamento moderno e prospetivo de Portugal com o mar, que permita compreender e valorizar a ligação secular de Portugal com o mar, a qual “desde há décadas, o nosso país não tem sabido valorar e tirar partido pleno (…) [e] deixou até mesmo, em geral, de percecionar a existência de uma tal ligação”.

A posição geográfica do País e a configuração do território com dois arquipélagos e uma vasta área marítima, a tradição marítima ainda remanescente e a proximidade do mar da morada da maior parte da população portuguesa constituem, juntamente com o conhecimento técnico e científico sobre o mar existente na Marinha de Guerra e nalguns centros de excelência de universidades e de laboratórios, mais-valias efetivas de Portugal para o desenvolvimento de atividades económicas ligadas ao Hypercluster da Economia do Mar.

No entanto, a ausência do mar, por várias décadas, no pensamento estratégico nacional, a conotação do mar com um passado de cariz político, a falta de estruturas para a formação de pessoal do mar e o apagamento da maior parte das atividades marítimas em Portugal, bem como a falta de capacidade e/ou vontade das sociedades política e civil para alterar o “status quo” existente, são barreiras efetivas a um relacionamento mais proveitoso com o maior ativo que o País possui para o seu desenvolvimento económico e social e a sua afirmação política no contexto internacional onde se movimenta.

Para contrariar esta situação, e promover uma aposta séria e com resultados concretos no âmbito estratégico e económico de Portugal, é essencial, em primeiro lugar, criar uma imagem renovada do mar e das suas capacidades e potencialidades como factor indispensável à identidade própria e à economia dos Portugueses, correspondentes à nossa posição geográfica, europeia e atlântica e à dimensão e importância do espaço marítimo nacional, com uma visão de futuro, de horizontes amplos, ambiciosa e determinada.
Torna-se assim fundamental (re)colocar o mar no centro do ideário nacional como factor mobilizador e de coesão nacional, associando-o a uma imagem, e sobretudo a uma realidade (que produzirá a imagem), de modernidade, inovação, mobilização, criação de riqueza, poder e prestígio.

O afastamento da sociedade por efeito do desconhecimento ou ignorância face à realidade da relevância estratégica, económica e social do mar exige o investimento na aprendizagem daquilo que é efetivamente o mar, sobre o seu valor económico, científico, ambiental, político e estratégico, para que o relacionamento com ele seja mais racional e inteligente.

É uma tarefa vasta, na dimensão do esforço, e abrangente, quanto ao universo a envolver, devendo dirigir-se a toda a população, embora naturalmente com graus de empenhamento muito diversos, dando visibilidade ao mar numa perspetiva inovadora, muito para além da imagem vulgar e redutora de sol, praia e lazer. Conhecer melhor o mar por parte de cientistas, académicos, políticos, investidores, estudantes, trabalhadores do mar, jornalistas, desportistas náuticos, comunidades da borda de água e também do interior terá de ser uma tarefa a ter em mente numa base de ação permanente todos os dias, para que se consiga gostar mais do mar, trabalhar melhor com ele e tirar dele o rendimento que pode dar.

Saber mais sobre o mar implica entender o valor económico muito substancial que já tem para a nossa economia e que ainda pode e deve ser amplamente aumentado, em todas as atividades direta e indiretamente relacionadas com ele.

Contabilizemos o turismo que induz sobre a linha de costa, e também aquele que gera nas suas águas com cruzeiros marítimos locais e internacionais, embarcações de recreio e de desporto de competição, com as atividades de mergulho de observação da natureza ou de fim arqueológico, com o surf, o windsurf, o parasailing, o kitesurf, etc.

Avaliemos as atividades de reparação naval, de construção naval, de aquicultura e de pesca, de portos e de marinas, de extração de inertes, de produção de energias renováveis, de transporte marítimo entre o nosso triângulo e entre ele e o estrangeiro, etc.

Consideremos o valor daquilo que a investigação científica pode permitir que venha a ser retirado do nosso vasto mar, sob a forma de nódulos metálicos, de petróleo, de hidrometano, de produtos de biotecnologia de vasto emprego na saúde humana e na redução de poluentes, nos alimentos das fontes hidrotermais, etc.

Pensemos nos valores extra-mercado que o mar cria, quer pelo bem-estar devido à sua proximidade, quer com o desfrute das suas capacidades recreativas, como as idas à praia ou com as mais-valias que projeta nas propriedades da linha de costa. A sua capacidade de absorção e de processamento de anidrido carbónico é vultosa e, igualmente, não se traduz por valores de mercado.

Para além da importante vertente económica, científica e ambiental, devemos também afirmar e salientar sem tibiezas a relevante riqueza moral do mar, como factor que nos identifica como país distinto no seio de uma União Europeia tendencialmente padronizadora, sobretudo dos países mais pequenos.
Portugal tem uma costa atlântica profundamente aberta a oeste, livre de restrições à navegação, próxima do cruzamento de rotas marítimas importantes e distante de áreas politicamente instáveis e inseguras, o que constitui uma enorme mais-valia para si próprio e para a União Europeia.

O mar é, pois, a imagem de marca do País, pelo conhecimento universal que lhe associa uma geografia e uma história marítimas muito ricas. É nele que encontramos a dimensão e a profundidade que falta ao território e é, ainda, o mar que tem de gerar o factor grandeza que não existe na mentalidade restrita da maioria da nossa população.

É esta visão nova, deste mar novo, que tem de ser criada, com um projeto para uma imagem e uma cultura renovadas do mar e uma postura diferente, enquanto inovadora e pró-activa, das sociedades civil e política.

Trata-se de um plano ambicioso que exige determinação, esforço e tempo, e que tem de, objetivamente, identificar os alvos, definir as ideias chave e estabelecer os processos de comunicação. Deverá, depois e à medida do seu desenvolvimento, ir avaliando os resultados, e em função deles, (re)adaptar o próprio plano.

Os alvos prioritários do plano de comunicação a desenvolver deverão ser os empreendedores das atividades económicas ligadas ao mar e os que constituem a sua força de trabalho, ambos numa visão sobretudo prospetiva, embora sem descurar os atores atuais. Empreendedores e mão-de-obra qualificada têm de crescer de modo coordenado, quebrando o ciclo vicioso que atualmente se verifica nalguns segmentos, de não se investir porque não há operadores para o sistema e de os jovens não escolherem as carreiras do mar por preverem dificuldades na obtenção de empregos atrativos com boas perspetivas de futuro.

Dever-se-á, neste grupo dos alvos prioritários, incluir os decisores políticos, mas a experiência demonstra que tal tarefa isolada poderá não conseguir obter os melhores resultados pretendidos. É importante, no entanto, obter o seu concurso para o projeto, o que terá de ser conseguido no âmbito de uma estrutura onde a autoridade política se encontre com os parceiros privados interessados na respetiva prossecução e pela pressão direta de todos os atores do sistema Hypercluster, quando a massa crítica tiver sido atingida.
Os alvos secundários, e entenda-se esta classificação como apenas derivada da intensidade das ações e do efeito a obter, deverão incluir as comunidades ribeirinhas, os cientistas, os comunicadores e a população em geral. Com o Hypercluster já a funcionar com resultados visíveis e com produção significativa, deverá estender-se a lista de alvos ao mercado externo.

A captação de empreendedores dependerá muito da ação direta que os atores do Hypercluster façam sobre potenciais interessados, embora um bom plano de comunicação não deva ser minimizado na contribuição para formar as mentalidades, evidenciar potencialidades e demonstrar realidades interessantes.
O recrutamento de pessoas de qualidade para fazerem carreira dentro do Hypercluster exigirá tato e ações coordenadas entre a comunicação e as realizações concretas dos diversos segmentos do Hypercluster.

A via deve ser orientada para as camadas jovens, na perspetiva de conseguir um recrutamento para carreiras estáveis, de exigência evolutiva e com elementos de atracão, tendo uma linha direta para os estudantes de todas as idades, e outra, também com os jovens como alvo, mas dirigida, indiretamente, aos pais, professores e orientadores profissionais.

As ideias chave a desenvolver e difundir, nomeadamente através do plano de comunicação, devem ser divulgadas como evidência da situação que vai sendo demonstrada pelas ações e resultados da atividade dos segmentos do Hypercluster e destinam-se a ajudar a perceber uma realidade, o mar, que apesar de estar junto à porta da frente da maioria dos portugueses é muito ignorado.

As importantes ações de um plano de comunicação devem ser definidas, de forma a envolver cooperantemente todos os segmentos e serão coordenadas na sua execução por uma estrutura permanente a criar. Deverá, assim, haver um planeamento centralizado, nas grandes linhas de ação, e uma execução distribuída por todos os segmentos mas coordenada. A estrutura permanente a criar executa as tarefas que têm características comuns e assume a coordenação de todo o plano.

O elenco de ações que podem ser lavadas a cabo pode ser muito variado e adaptado em cada momento, devendo incluir um amplo âmbito de ação, com produtos de comunicação social, publicações próprias, portal informativo na internet, criação de eventos específicos, participação em eventos e “portas abertas”.
Assim e a título de conclusão, é uma preocupação comum a todos os clusters analisados a imagem e a comunicação pública por parte de todos os seus componentes. É uma área em que é investido esforço permanente, desde a fase de arranque.

Há necessidade, entre nós, de criar uma imagem renovada do mar e das suas capacidades e potencialidades, visando conhecê-lo melhor, para melhor se interagir com ele e dele tirar proveito material e moral.

É fundamental a elaboração de um plano de comunicação com ações orientadas para um vasto universo de alvos, onde a juventude assume um papel de realce. Este plano incluirá um conjunto de ideias chave a fazer divulgar e entender e constará de ações diversificadas, tais como produções com a comunicação social, publicações próprias do Hypercluster, eventos específicos, eventos em que o Hypercluster participa e outros eventos nacionais, tipo, por exemplo, “portas abertas” de instituições ligadas ao mar.

*Excerto apresentado por SOAMAR Brasil em Portugal


Temas: , , , , , , , , , , , ,



Apoios e Parcerias