A Energia

Energia e a ex – União Soviética

De todas as grandes potências industrializadas, a ex U.R.S.S. é a única que no momento é auto-suficiente em matéria de energia. (A produção soviética de petróleo e gás natural atende às necessidades internas atuais. De acordo com os dados conhecidos, a produção interna de energia da ex U.R.S.S. atende a uma demanda geral de 60 QBTU através de um suprimento constituído por 34 por cento de carvão, 23 por cento de gás natural e 36 por cento de petróleo.

O principal problema energético que a ex U.R.S.S. está tendo que enfrentar é a dificuldade de atender às necessidades energéticas dos países da Europa Oriental, dos quais insiste em ser a principal fornecedora. O consumo atual de petróleo da Europa Oriental é da ordem de 1,8 MBD; a Rússia fornece 90 por cento das importações da região, principalmente a partir dos seus próprios recursos, e o restante é obtido no norte da África e no Golfo Pérsico.

O aumento dos recursos energéticos soviéticos envolve custos imensos. Dificuldades topográficas, logísticas e técnicas, e os longos sistemas de oleodutos necessários para explorar os campos da Sibéria Oriental continuarão a ser obstáculos para o aumento da produção. Até hoje, os esforços soviéticos para adquirir a atual tecnologia (técnicas de perfuração em terra e no mar e processos de recuperação) das companhias de petróleo do Ocidente e do Japão, que é considerada essencial para o aumento dos recursos energéticos da Rússia, têm sido mal sucedidos. Entretanto, os russos insistem. As estimativas das necessidades de importação dos russos na próxima década variam de pouco mais de I MBD até 9 MBD. Simplesmente não sabemos ao certo e só podemos afirmar que provavelmente a Rússia terá que importar petróleo nesta década, até que seja capaz de explorar novos recursos em seu território. A tecnologia ocidental ajudaria a ex U.R.S.S. a manter sua autonomia energética. O relatório da Central Inteligence Agency , que estimou as importações da ex União Soviética em 1985 em 3,5 a 4,5 MBD (petróleo importado do Oriente Médio) está consideravelmente acima do grau de dependência previsto por outros estudiosos.

Uma questão a respeito da política soviética que há muito tempo os governos produtores “radicais” do seu lado em um programa de guerra econômica contra o Ocidente e o Japão. Tem havido oportunidades para isso: a Crise de Suez de 1956, a Guerra de Junho de 1967, e a Guerra de Outubro (e conseqüente embargo) em 1973-1974. Além do mais, poderia parecer que nos três casos havia sentimentos anti ocidentais mais que suficientes para assegurar um aumento da influência soviética. Além disso, grandes investimentos soviéticos em empréstimos, projetos de desenvolvimento, equipamentos e treinamento militar em vários países e ocasiões desde a Segunda Guerra Mundial – no Iraque, Síria, Egito e mais recentemente na Somália e Etiópia – devem ter parecido ao Kremlin razão suficiente para acreditar que estava criando uma presença permanente no Oriente Médio, que há muito vinha buscando mas que parecia um objetivo inatingível. Entretanto, nenhuma dessas iniciativas surtiu resultados suficientemente duradouros, até hoje, para colocar em risco o suprimento de petróleo. Até o momento, pelo menos, a campanha da Rússia contra os “imperialistas do petróleo” tem sido um fracasso.

As razões para esse insucesso não são muito claras, mas três considerações parecem válidas:

I. Os russos deixaram de identificar seus próprios objetivos e ideologia aos dos regimes “radicais” do Oriente Médio e do norte da África, a despeito de relações táticas ocasionais e relativamente fugazes, que não foram suficientemente abrangentes para se tornarem “permanentes” ou “estratégicas”.

Por mais radicais que alguns países árabes possam parecer, provavelmente muito poucos estão dispostos a se submeterem a um novo controle estrangeiro depois de se livrarem do controle do Ocídente.

2. Os russos não conseguiram penetrar significamente no Kuwait, Irã e Arábia Saudita, cujos interesses petrolíferos superam de longe o único país produtor de petróleo que a ex União Soviética conseguiu controlar: o Iraque. Sem a forte influência desses outros produtores, O Iraque nunca foi suficiente.

Hoje cm dia, talvez a União Soviética não considere o Iraque como “digno de confiança”. Além disso, o Kuwait, o Irã e a Arábia Saudita têm sido forças conservadoras na região, menos inclinadas a compartilhar seu futuro com o do mundo ex comunista.

3. Os russos não foram capazes de convencer os países produtores de que qualquer interrupção do fornecimento de petróleo

ao Ocidente, causada por medidas dos governos dos países produtores contra as companhias internacionais de petróleo, poderia ser compensada pela substituição imediata dos técni¬cos das companhias por elementos locais, com a assistência da União Soviética. Finalmente, nunca houve qualquer possibilidade de que as importações de petróleo do Mundo Comunista atingissem um volume suficiente para proporcionarem ao Oriente Médio, mesmo por um curto período de tempo, a mesma renda obtida através de vendas para o Ocidente e o Japão.

Pode haver uma quarta explicação: a U.R.S.S. pode ter julgado que seus esforços para prejudicar os acordos de petróleo com o Oci¬dente poderiam resultar em uma reação dos Estados Unidos que, em época de crise, talvez levasse à guerra. Até o momento, nenhuma crise, genuína ou provocada pelos russos, foi suficientemente séria para con¬duzir a este desfecho. Ou é possível que os soviéticos possam ter sido mal sucedidos em sua busca de aliados porque o Kremlin não pôde ou não quis oferecer uma assistência no nível que os clientes em potencial consideravam desejável?

A Política dos Países Produtores

Quanto à evolução da política dos países produtores, a observação crítica é que cada país exportador de petróleo (inclusive quase todos os pequenos produtores) passou por uma variedade de experiências colonialistas sob o controle de um dos impérios ocidentais; se o país não era uma colônia no sentido formal da palavra, seus lideres e seu povo provavelmente se consideravam como colônias. Como em muitos ca¬sos o início da exploração do petróleo teve lugar durante uma experiência neocolonialista, a nacionalização do controle da extração de petróleo foi encarada por esses povos como o sinal do fim de uma era. Assim, praticamente para todos eles, o “petróleo” tem um signhicado profundo em sua emancipação política e econômica. A lista inclui o México, a Venezuela, a Argélia, a Líbia, o Irã, o Iraque, o Kuwait, a Indonésia e a Malásia.

Ao libertar-se de uma relação “colonial” e assumir o controle sobre a exploração do petróleo, o México mostrou o caminho em 1938, desapropriando as companhias estrangeiras de petróleo. Isso aconteceu há mais de sessenta anos, mas a situação perdura até hoje: quem resolve o que vai fazer com o seu petróleo é o México, e não os estrangeiros e os interesses estrangeiros.

No Irã – no governo de Mossadegh – a situação tornou-se particularmente explosiva. Se o pai assumisse o controle do petróleo, isto teria um efeito incendiário sobre as concessões e o papel das grandes companhias em todo o Oriente Médio. Embora Mossadegh tenha “fracassado”, graças principalmente ao embargo das companhias petrolíferas inglesas e norte-americanas, o resultado pode ser considerado, na verdade, como uma vitória para o Irã. No final, o quase monopólio da Anglo-Iranian Oil Company foi substituído por um consórcio, com participação significativa de companhias norte-americanas, que passou a funcionar em condições bem diferentes. Afinal, o Irã assumiu o controle sobre o petróleo como uma parte essencial de sua independência econômica e política, e o exemplo iraniano veio a servir de modelo para a política de petróleo de outros países menos desenvolvidos (PMD).

A Indonésia também foi um país pioneiro. General Ibnu estava convencido de que enquanto o sistema colonialista de concessões prevalecesse ás corrosivas políticas internas de petróleo não poderiam ser contidas. Ele insistiu em que era essencial uma nova política de petróleo, e as companhias foram forçadas a ceder. Contratos de serviços e de risco se tornaram a regra geral e removeram rapidamente o estigma político da exploração estrangeira do petróleo da Indonésia.

No caso da Nigéria, a exploração das reservas de petróleo começou depois da independência política, mas sua atitude hoje em dia resulta da experiência como colônia e em um período caótico depois da independência, que foi complicado ainda mais pelas maquinações das grandes potências. Assim, a política de petróleo da Nigéria se baseia na crença de que a independência econômica é um requisito essencial para a independência política, a mesma crença que motiva outros PMO.

O Canadá e a Austrália poderiam ser considerados exceções à regra que liga o petróleo ao “colonialismo”, mas a realidade é outra. Qualquer um que tenha acompanhado a evolução política desses dois países não ignora a atitude dominante de que seus recursos estão sendo explorados por estrangeiros; nos dois casos, O governo acredita que a indústria energética está a serviço de interesses externos. Assim, por exemplo, quase 90 por cento do petróleo do Canadá é controlado por subsidiárias de companhias de petróleo norte-americanas. A experiência da Austrália não é muito diferente. Na questão do petróleo, esses países estão quase na mesma situação que os exportadores da OPEP. Alguns consideram a Arábia Saudita como a única verdadeira exceção à experiência colonial de outros produtores. Originalmente, os sauditas deram preferência aos interesses norte-americanos, principalmente porque os Estados Unidos eram “diferentes” e poderiam contrabalançar o domínio inglês no Golfo Pérsico. Até hoje, as relações entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos têm permanecido relativamente livres do antagonismo que tem caracterizado as relações entre outros produtores e aqueles que controlam o seu petróleo. Mesmo assim, dada a enorme importância do petróleo saudita, é necessário considerar as perspectivas presentes e futuras à luz de três observações: primeiro, é possível que, em um momento crítico, alguns dos líderes sauditas procurem obter vantagens políticas do fato incontestável de que as companhias de petróleo norte-americanas desde o inicio monopolizaram a exploração e distribuição dos imensos recursos sauditas; em segundo lugar, a Arábia Saudita assumiu o controle político do seu petróleo mais ou menos na mesma ocasião que os outros países da OPEP, de modo que o fato de assumir o controle sobre o petróleo une os sauditas aos outros produtores; em terceiro lugar, os sauditas não podem se isolar dos seus vizinhos do Golfo Pérsico. Eles não estão imunes às pressões e tendências políticas da região.

Em resumo, os sinais de alerta de que haveria mudanças políticas no controle do petróleo vieram há algum tempo, e depois a situação evoluiu rapidamente. Não há indícios de que os atores principais -os gigantes internacionais do petróleo -tenham previsto as mudanças. Quando a crise chegou, a politização do petróleo se disseminou com uma rapidez que impediu que as companhias e seus governos se ajustassem a tempo, mesmo que estivessem dispostos a fazê-lo (o que não estavam).

Parte do ressentimento ou desconfiança dos produtores pelas companhias internacionais de petróleo advém da ligação óbvia entre os interesses imperialistas britânicos e o controle por parte dos ingleses de uma parte significativa de duas das onipresentes “Sete Irmãs”. As outras cinco “Irmãs” têm sido controladas pelos norte-americanos, e nesse caso o ressentimento ou apreensão tem sido dirigido contra este símbolo de “capitalismo internacional” do ponto de vista das lideran¬ças socialistas dos


Temas: , ,



Apoios e Parcerias