Desportos náuticos

Hernâni Lopes

Desde há muito que a Náutica de Recreio e o Turismo Náutico (sobretudo a primeira) assumem grande importância para Portugal.

A prática de desportos náuticos de competição e de lazer estendeu-se a todo o país, sendo inúmeros os clubes/centros de desportos náuticos localizados junto ao mar, estuários e planos de água interiores. Não existe, no entanto, informação estatística que permita aferir quer o número de clubes, quer o número de praticantes e, mesmo no desporto federado, apenas a vela é referenciada de forma autónoma nas estatísticas. O único levantamento mais estruturado e exaustivo, foi realizado no âmbito do programa INTERREG IIIB, projecto Nautisme en Espace Atlantique e incide apenas sobre as regiões Norte e Centro.

O desporto náutico, na vertente competição, depois de um grande declínio na segunda metade do século XX, sofreu um novo impulso na última década desse século e tem-se mantido relativamente estável, com algumas presenças nacionais e alguns lugares de topo em diversas modalidades náuticas.
No entanto, a vertente de lazer apresenta um assinalável crescimento nos últimos anos, em resultado da maior procura, acima referida, de destinos “saudáveis”, férias ativas, “experiências” e convivência com o espaço natural.

De entre todas as atividades desta área – vela, windsurf; kitesurf, surf, bodyboard, rafting, remo, canoagem, kayak, ski aquático, motonáutica, pesca desportiva, caça submarina, mergulho – algumas há que se destacam pela expansão que atravessam e que, por isso, encerram um grande potencial.
O surf é uma das atividades que se tem vindo a desenvolver e a ganhar apreciável notoriedade internacional, em especial pela mediatização de algumas “praias” privilegiadas para a sua prática em
Portugal, designadamente através da realização de provas do calendário oficial internacional, mas também pelo aparecimento de atletas nacionais que disputam lugares cimeiros a nível da alta competição mundial.

Nos últimos anos surgiram diversas escolas/clínicas de surf e está prevista a criação de um conjunto de centros de alto rendimento de surf em várias zonas do nosso litoral. Atendendo a que na costa portuguesa (tanto do Continente como dos arquipélagos dos Açores e da Madeira) existem inúmeros locais apropriados para a prática desta modalidade, e que se trata de uma atividade acessível a todos, poderá ser um dos desportos a desenvolver, designadamente através da certificação de centros de surf, escolas/clínicas e de uma aposta na formação destinada a monitores. Este desporto tem ainda a vantagem de ser praticado em “época baixa”, distribuído por todo o país e com propostas de consumo complementares que aumentam a despesa per capita.

O kitesurf, atividade relativamente recente em Portugal, está também em franco desenvolvimento. Tal como o surf, é uma atividade acessível a todos e que pode ser praticado em qualquer época do ano, dado que a costa portuguesa é bastante ventosa o ano inteiro. Tem a vantagem de não estar limitado à existência de ondas podendo por isso ser praticado em qualquer plano de água. É uma modalidade particularmente atrativa pela sua espetacularidade.

O mergulho amador é também outra atividade interessante e em franca expansão em Portugal face à implantação de um novo e mais fácil sistema de aprendizagem, com vários níveis de evolução e certificação internacional. Nos últimos anos assistiu-se à proliferação de centros e escolas de mergulho no nosso país, a que acresce o facto de muitas vezes a primeira fase de aprendizagem ter lugar em locais de férias em qualquer parte do mundo. Apesar de o mergulho subaquático em Portugal não se enquadrar no tipo de mergulho praticado em águas tropicais, a biodiversidade das nossas águas e fundos subaquáticos é muito atrativa, não só nos arquipélagos dos Açores e da Madeira (com temperaturas de água mais amenas) como em inúmeros locais da costa continental.

Para além disso trata-se de um tipo de mergulho em mar aberto, mais aventureiro, e mais difícil, com especificidades muito apreciadas por mergulhadores mais experimentados e mais exigentes.

A prática de mergulho por não residentes está normalmente associada a elevados consumos complementares (alojamento e alimentação, do próprio e da família).
Existe uma nova legislação para o desenvolvimento desta atividade, mas que está ainda por regulamentar. Faltam também algumas condições de segurança, nomeadamente a instalação de câmaras hiperbáricas em diferentes áreas geográficas do país e a funcionar em pleno. Um segmento particular do mergulho amador é a arqueologia turística subaquática que tem vindo a captar bastantes adeptos e que poderá ser desenvolvida em Portugal tirando partido dos inúmeros vestígios subaquáticos existentes.

Por fim, merecem referência as atividades náuticas propulsionadas a remo ou à vela em pequenas embarcações, como a canoagem, o kayak, o remo e a vela ligeira. Estas atividades praticam-se essencialmente nos estuários e planos de água abrigados mas podem (exceto o remo) ser praticados no mar. Para a sua prática é necessário possuir uma embarcação ou fazer parte de uma associação/clube, mas normalmente neste caso a prática está (quase) sempre associada a estágios ou aprendizagem, o que pode ser desmotivador face à obrigação de horários. A posse de embarcação também obriga muitas vezes a pertencer-se a um associação/clube por forma a dispor de um espaço de armazenagem. São no entanto modalidades que, à semelhança do que se passa noutros países, poderiam ser praticadas mais intensamente e fazer parte de uma programação turística se existissem locais onde fosse possível alugar embarcações para prática individual, com ou sem monitor. Estas modalidades poderiam também ser integradas no desporto escolar o que permitiria manter os centros náuticos em atividade durante o ano inteiro, facilitando a contratação de monitores de qualidade.

A maior disponibilidade por parte das entidades públicas em promover atividades náuticas junto da camada mais jovem, transposta na proposta da Estratégia Nacional para o Mar de “fomentar o ensino da vela, natação, remo e outros desportos e atividades náuticas nas escolas em colaboração com os clubes e as autarquias, o crescente interesse da população mais jovem pela prática de desportos náuticos e crescente preferência por férias ativas e a desmistificação de que os desportos náuticos são apenas para uma camada elitista da população vêm aumentar consideravelmente o potencial para a criação de centros de treino de vela (e de outros desportos náuticos) de alta competição tirando partido das condições climáticas favoráveis.

*Excerto apresentado por SOAMAR Brasil em Portugal


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