Futuro para a Economia da Pesca

Hernâni Lopes

Uma possível dimensão respeita às nanotecnologias. As nanotecnologias podem ser definidas como o estudo e a manipulação de materiais a uma escala manométrica, grosso modo, à escala do átomo ou molecular.

A nanotecnologia é uma “ciência” relativamente recente. Tendo um carácter multidisciplinar, a investigação e desenvolvimento fundamental são cruciais. Em alguns domínios, as nanotecnologias atingiram um grau de desenvolvimento e de maturação que podem já ser incorporadas nos produtos.

Do seu desenvolvimento e disseminação decorrerão inúmeras oportunidades e riscos sendo relativamente seguro que irão subverter o nosso quotidiano (e a respetiva perceção) num grau muito mais elevado do que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) (nomeadamente com os telemóveis e internet) conseguiram no final do século XX e continuam a conseguir até aos dias de hoje.

Naturalmente, as biotecnologias conjugam-se com as nanotecnologias nas nano biotecnologias que deverão ainda subverter mais a nossa perceção e quotidianos.
Do referido anteriormente, podemos tirar duas grandes ilações, com forte segurança, para os domínios da pesca e da aquicultura. A captura de pesca de espécies pelágicas tem horizontes quantitativos fortemente condicionados, senão mesmo decrescentes e o desenvolvimento tecnológico constitui um factor decisivo, nomeadamente para a aquicultura no seu processo produtivo, em geral, desde o da “conceção das espécies” até ao seu cultivo e posterior processamento.

Estas ilações tendem a levar-nos a encontrar, em termos de mercado, três grandes variedades de produtos de pescado:

* a “iguaria” de (híper)luxo correspondente ao peixe capturado “fresco” e colocado no consumidor final;
* as espécies piscícolas cultivadas em aquicultura, com elevados padrões certificados de qualidade e de comercialização – incluindo produtos do seu processamento (vide o anteriormente referido “peixe com valor acrescentado”) – e colocados no consumidor final explicitamente com esta certificação; e

* as restantes espécies piscícolas, processadas ou não, mais ou menos estandardizadas/indiferenciadas e colocadas maciçamente nas grandes cadeias de comercialização.

Deverá haver variantes que apresentem dificuldades em serem catalogadas nestas três grandes variedades (inclusive, há produtos de “fronteira”), mas não se apresentam relevantes em termos de mercado.

Enquanto a variante “iguaria” é facilmente percetível dada a escassez crescente do produto e as suas características ímpares, as outras variantes necessitam para uma sua melhor perceção – e correspondente valor de mercado – de explicitarem os contributos do desenvolvimento tecnológico e dos processos de comercialização.

Referimos anteriormente que, no domínio da aquicultura, há que encontrar espécies “eficientes” no seu processo de alimentação e o desenvolvimento das (nano)biotecnologias conduziria ao “desenho” de espécies, seja o do “cultivo” de espécies “funcionais”, seja o do seu processo de produção poder vir a envolver tecnologias revolucionárias aos olhos do presente ou, muito simplesmente, os aspetos de biossegurança estarem mais ou menos tecnologicamente avançados.

Há, de novo, que referir que as atividades de aquicultura estão geralmente localizadas dentro de espaços de jurisdição nacional o que significa que a sua regulação é uma responsabilidade nacional, sendo regulamentada e monitorada por instrumentos e acordos nacionais.

Quando devidamente cuidados, estes aspetos cultivados e explicitamente relevados no processo de comercialização poderão, senão mesmo deverão, permitir “encaixar” os produtos na segunda ou terceira variantes referidas. Isto é, ou se tem um produto bem diferenciado qualitativamente e comercializado correspondentemente, sendo suscetível de ser considerado na segunda variante, ou fica, naturalmente, na considerado como pescado indiferenciado/massificado.

Naturalmente, há “subvariantes” dentro das variantes, como o comércio dos produtos materiais e imateriais quotidianamente nos revela. Inclusive, há upgrades e downgrades dentro de cada variante, por vezes entre variantes, dependendo estes, nomeadamente, dos esforços com sucesso de marketing ou da evolução dos estilos de vida. Contudo, o que nos importou aqui foi clarificar os fatores claramente diferenciadores dos produtos da captura do pescado e da aquicultura: escassez natural e qualidade nutricional e tecnológica e do subsequente grau de qualidade em termos de comercialização e marketing.

Quanto maiores forem as necessidades quantitativas de alimentação, maior estímulo deverá ser esperado da aquicultura, dado que a captura de pescado de espécies pelágicas apresenta limitações sérias conforme expusemos. Também deverão surgir resultados das biotecnologias com espécies de maior eficiência no respetivo processo de produção.

Quanto maiores forem as necessidades qualitativas – em resultado, sobretudo, dum maior ritmo de crescimento económico internacional que possibilita a mais dezenas de milhões de pessoas começarem a desfrutar ainda mais da alimentação do que recorrer a esta enquanto necessidade primária de sobrevivência
– todas as variantes antes referidas sofrerão um forte impulso. No entanto, a variante “iguaria” deverá ver o seu valor de mercado subir mais significativamente e incluir capturas de espécies deep water resources que envolvem técnicas de captura mais sofisticadas. Também a segunda variante deverá sofrer um forte estímulo, seja na produção, processamento e comercialização de qualidade de espécies já conhecidas, seja nas de design proporcionadas pelo desenvolvimento do conhecimento das functional foods, seja no das biotecnologias. Naturalmente, a terceira variante sofrerá estímulos para a sua expansão mas, tal como se referiu, corresponde à cadeia de menor valor acrescentado, onde caem os produtos que não souberam certificar-se para as primeiras variantes.

Parece ser evidente que os aspetos designados de I&D (Investigação e Desenvolvimento) serão cada vez mais importantes, seja para a produção física, seja para a obtenção de produtos qualitativamente superiores e certificados e comercializados como tal. A “pesca tradicional/artesanal” não tem “futuro” – poderá haver artesãos que a pratiquem e que consigam colocar os seus produtos em termos correspondentes a “iguarias” mas a sua dimensão económica não é relevante, salvo para os mesmos, enquanto tal lhes for possível.

Outros artesãos haverá, mas cuja produção corresponderá, sobretudo, a atividades localizadas de sobrevivência enquanto os recursos não se esgotarem e a regulamentação a viabilizar. Contudo, tal como nos primeiros, a sua dimensão económica tende a não ser relevante.

Ressalve-se, no entanto, que esta tendência de “raridade” da “pesca tradicional/artesanal” poderá, em certos casos, ser aproveitada enquanto “produto turístico” de elevado valor acrescentado mas sem dimensão económica no mercado da pesca e da aquicultura. O produto turístico corresponde a um “safari” ou a uma caçada terrestre e tende a enquadrar-se num dos produtos de um conjunto oferecidos por um operador ou uma região turísticos.

*Excerto apresentado por SOAMAR Brasil em Portugal


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